Sexta-feira, Junho 13, 2008

O rapaz encostou-se no poste, daquela mesma esquina de todos os dias, dos mesmos dias de sempre. Já era tarde e o ar cheirava a calma, sem a atribulação dos carros que, afoitos, passavam, trabalhavam e passeavam.

Chegou a loira. Era uma moça corpulenta, de rosto bonito e sorriso jovial, quase imaturo. Seus olhos eram dois glóbulos castanhos, mas com ranhuras negras, que tornava-os profundos e intensos. Ali dentro daquela retina jazia a efervercência e uma grandiosa necessidade de ser amada, de viver intensamente e descobrir mundos novos.

Seus olhos tocaram-se e, num instante, comunicaram-se. Ele achegou-se a ela, ofereceu-lhe um sorriso sincero de amor e carinho, abrochoou-lhe um beijo na face esquerda e, num gesto singelo, despediu-se dela. E ela foi-se, na imensidão daquela noite, que nada mais era que que mais uma noite.

Ficou só, encostado no poste, de testa franzida e pensamento fugidio. Seus mecanismos mentais perdiam-se e transformavam-se em universo... ou em vazio, talvez

O pensamento rompeu-se, súbito. Era aquele sorriso que ele conhecia muito bem. A japonesa, baixinha e cheinha que, de semblante iluminado, tocava-lhe o braço e abraçava-o calorosamente.

Aquele momento era único, como todos os outros. Era mergulhar, novamente, dentro da retina desta outra e transformar imagem em sentimentos e sensações. Refletia dentro da retina dela e vice-versa. Olhos brilhavam.

A pupila desta era diferente, cheia de tons castanho-claro-esverdeados. Tinha uma certa "maciez" (se é que isso é possível dentro dos olhos), uma clara sinceridade e uma força de paixão sem fronteiras.

Ele tocou-lhe o rosto, com suavidade, e beijou-lhe a testa - o beijo do respeito - e, com outro gesto rápido e sutil, despediu-se dela. Ela, também, foi-se. E seus olhos prometiam voltar, com um semblante levemente tristonho pela solidão do rapaz e a sua própria. Em seguida, trasformou-se em noite escura.

Lá se foi o pensamento dele, de novo. Vagava, iluminado pela luz do rosto desta última, pela melancolia dos seus gestos e pela fome intensa de carinho que tinha.

Olhou para os dois lados da rua, para o céu e para as pessoas que, distraídas ou retraídas, "transeuntavam". TOdos o interessavam. E eram muitos! Olhava o semblante de uma moça, a firmeza dura da expressão do vigilante, as curvas inesquecíveis da senhora bem cuidada e, dentre tantas pessoas, reconheceu uma.

E ela veio à sua presença. Meia idade, rosto bonito e mãe de família. Reafirmou o prazer de vê-lo assim, tão inusitadamente, fez-lhe um carinho no rosto e, entre promessas de contato, partiu.

Agora o rapaz, já cheio de semblantes e lembranças, tentou, em vão, lembrar-se dos olhos desta última. Ora, não teria lido a menina dos seus olhos? Esquecera-se? Talvez a única que não havia tocado a alma diretamente.
--Vamos? - Irrompeu aquela a quem ele esperava ali, naquele poste, naquela esquina, naquela tão comum noite - tanto como todas as outras.

Deu-lhe um beijo nos lábios finos e róseos, assentiu com a cabeça e desapareceu, junto dela, na imensidão do mundo dos sentimentos.

André Lopes - 06 de julho de 2007 - 10h57

2 comentários:

Verônica disse...

que legal que você também voltou. esses dias atrás lembrei-me de você, porque sonhei com a Kátia. (vai vendo a rede de ligações).
já te adicionei no meu rss.
beijo.

Márcia disse...

boas vindas ao recomeço.