O legado da Borboleta
Havia um menino pequeno. Ele brincava muito, só, dentre galhos de goiabeira. Branca e vermelha. Duas árvores.
Saciava-se em suas brincadeiras e deliciava-se ao tocar o caule, perceber as cores vivas das folhas e frutas. E, na primavera, cheirava as flores. Branquinhas, enclausuradas em uma casca dura verde forte. Mas sempre lindas.
O menino, noutras vezes, subia no galho mais alto – a central de controle da nave-árvore – e ficava ali, guiando a frondosa para lugar algum. Entre viagens estelares, corridas contra os inimigos, raios lazer e mísseis incríveis, ele olhava para o longe. Como o mundo era grande! Muito mais do que aquele pedaço (que ele já julgava gigantesco) de terra que era o quintal da sua casa...
Descia, então, da goiabeira para tomar café. O sabor do café com leite somado ao pão com margarina era, pelo menos ao seu paladar, algo divino. Saciado, voltava ao solitário mundo repleto de sonhos.
Certo dia o menino achou algo que não havia visto antes. Era um animalzinho pequeno, peludinho, mas muito, muito bonito. Como havia sido alertado que exsistiam muitos insetos que podiam ser nocivos, chamou a mãe para ver.
-Isso é uma taturana! Ela queima! Não põe a mão nisso, não.
E ia atentar contra a vida da pobre. Ele, porém, interveio e impediu-a de acabar com a vida do pobre insetinho....
Aquele dia marcou-se em sua memória e, aos poucos, novas lagartas-taturana surgiam. Ele perdia-se em conjecturas: Para que serve a taturana? Porque ela queima? Como é que queima? Pensava e olhava-a atentamente, muito de perto, reparando nas suas cerdas peludas, cores (algumas eram vermelho-preto-amareladas, mas ele gostava mais das alvas). Sua incansável curiosidade levou-o à uma descoberta fenomenal: a taturana queimava pelas cerdas! Pelos Pêlos.
Maravilha! – pensou – Então posso pegá-la na mão por baixo!
Mal aguardava o dia seguinte. Ia experimentar sua tese. Chegou-se aos pés da gigante goiabeira. Procurou, afoito, as taturanas brancas. E lá estava uma! Alva! Linda! Tranquila....
Botou sua pequena mão no curso dela. A pequena estranhou o “terreno” macio que encontrara. Testou-o com suas antenas sensíveis e, finalmente, botou as patinhas frontais na pele jovem.
Foi subindo, subindo, pés ante pés, meio desconfiada. Mas, logo, passou a caminhar tranqüila na mão do menino, agora maravilhado.
Ele a olhava caminhando, em ondas, pela sua pele. E, quando a superfície de uma mão acabava, ele botava a outra no curso, a lagarta subia nela, e continuava caminhando... caminhando... Ele podia sentir cada passo dela, como uma cócegas, por toda sua pele. Não havia medo nenhum nos olhos ou mesmo nas atitudes do garoto. Somente uma sensação de beleza, de que uma criação tão bela, tão meiga, tão perigosa, tornara-se sua amiga.
Foi um dia lindo. Sua mente iluminou-se com novos horizontes! Nova vida foi criada dentro dele e agora, o menino solitário que vivia em um mundo de cores, imaginação, histórias fantásticas, tinha uma nova “amiga”. Aliás, muitas novas amigas.
Anos passaram. O menino já era um homem feito. Ainda imaginava muito. Ainda vivia solitário. Não havia tanta felicidade nele, como na infância, mas ainda maravilhava-se com pequenas coisas e coisas pequenas...
Borboletas, agora, o fascinavam. Criaturinhas lindas, belas, necessárias. Quando olhava para uma, sentia-se um pouco como na infância: maravilhado.
Um dia, sentado no seu computador, numa tarde qualquer, tocou o teclado com maciez e digitou, num site de busca, “borboleta”.
A definição da enciclopédia virtual atingiu-o como um raio! Uma das formas precedentes àquela criatura que agora o fascinava era, justamente, a taturana!
Todos dizem que a metamorfose da lagarta em borboleta é algo que vai do dantesco ao mágico, do feio (lagarta) para o belo (borboleta). Mas há tanta beleza nessa criatura, letal, mas linda...
Fases. Somente fases. Etapas de vida, ciclos que se completam. E são todos belos. E fim.
Doação dos tênis para o Coral
1 semana atrás
